Não, eu não vou reclamar da minha conta bancária. Muito menos, da minha condição social.Também não quero fazer drama sobre as injustiças da vida, sobre ter que aderir à lei do mais forte por livre e espontânea pressão e viver à custa da sorte (ou da bondade Deus) para não ser atingido por uma bala a caminho da padaria.
Não é raro e não é de hoje que viver tem custado caro. Custa dinheiro, custa paciência e custa fé. Às vezes, o custo até sai fora do orçamento da alma. A não ser o famigerado elenco do Jackass, ninguém espera com entusiasmo levar um chute no saco. Bom, se eu ganhasse o mesmo que eles pra isso talvez fosse interessante.
Enfim, não quero reclamar de tudo que todo mundo já está farto de reclamar. Mas, tá phoda. Tá phoda acreditar que essa situação não é pra sempre. É muito difícil convencer a mim mesma que tudo o que eu tenho hoje é tudo o que preciso nesse exato momento. Acho que é porque sinto que esse exato momento pode se replicar por muito e muito tempo ainda. E pensar nisso cansa.
Eu até tento fazer da vida uma poesia. Do tombo, um passo de dança. Estava eu aqui degustando meu miojo e bebendo um copo de coca-cola gorda beeeem gelada. Sim, eu realmente estava degustando e não simplesmente mandando o macarrão instantâneo pra dentro. Eu gosto dessa porcaria, principalmente quando coloco apetrechos nele, como creme de leite. Comer, pra mim, é orgástico e preparar a comida é uma preliminar. Se a comida é daquelas que engordam, então, é um sexo selvagem. Daí, estava eu aqui compenetrada (sem trocadilhos) e desfrutando desse momento gastronômico medíocre, quando pensei: quando esse prato acabar, ou eu vou me sentir satisfeita ou com peso na consciência. Ou seja: nem comer em paz eu posso, porque tudo vem com um porém. Se eu comer demais, engordo (e não to falando na “gravidade” do sentido). Se eu gastar demais, me endivido... mais. Não posso expor tudo que penso, porque muita gente pode usar isso contra mim. Também, não posso fingir que aceito tudo, porque eu posso usar isso contra mim mesma.
Na verdade, tudo parece ser levado com a onda. Quando dá, a gente melhora de vida. Quando der, a gente sai da pindaíba. Não quero isso. NÃO QUERO! Não quero viver aceitando as migalhas do acaso. Quero sair da onda e pegar a rota aérea pra alcançar a montanha mais alta que me permitir chegar. Eu quero, eu sei que posso, eu não vou desistir. Não, não, a crise não vai tirar isso de mim, muito menos os tatus (que me levam pro buraco).
Mas, sabe, não é docinho. Porque se fosse, eu já tava rica fazendo brigadeiro.

